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Há 30 anos, o apelo dos condomínios fechados era a qualidade de vida. Hoje, mais do que o lazer e o contato com a natureza, a segurança é o atrativo

Muro alto,cerca elétrica, carro de monitoramento, guarita, cancela, câmera, cão treinado e segurança armado. Os componentes dignos de cenas de um filme de ação fazem parte do dia a dia de muitas famílias, que escolheram privar-se da vida nas cidades, optando pela segregação de um condomínio fechado. Tendência de moradia para as próximas décadas, os condomínios fechados são entendidos como condomínios horizontais, espaços imobiliários com terrenos individuais e ruas internas fechadas. As casas ou sobrados construídos são cercados de muros e grades que os separam do entorno, seja a vizinhança urbana ou o vazio do campo.

foto 18 (3)Estima-se que atualmente mais de um milhão de brasileiros estejam morando em condomínios fechados. Em Curitiba e região metropolitana, eles são mais de duzentos, somados os menos populosos e as minicidades, com grande concentração de famílias e diversos espaços para lazer e prestação de serviços. Segundo o consultor de marketing do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon–PR) Marcos Kathalian, os condomínios fechados são uma opção sempre lembrada por quem procura uma moradia. “É um mercado que já está consolidado em Curitiba. Cerca de 55% das pessoas preferem a moradia horizontal e todos consideram os condomínios na hora de decidir”, afirma.

Desde que essa opção começou a ganhar força, houve uma grande mudança na localização dos condomínios. O arquiteto e urbanista Fábio Duarte, professor de Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e pesquisador de Mobilidade Urbana, afirma que a tendência atual é a vinda dos empreendimentos para perto do centro da cidade. “Eles estão saindo da região metropolitana e começam a entrar na área urbana, já existem alguns a menos de quatro quilômetros do centro da cidade”, conta.

Quando a arquiteta Gisele Busmayer de Souza e o marido Eduar-do Augusto Vaz Pinto de Souza vieram de Cascavel para Curitiba, trocaram um condomínio residencial por outro, aqui localizado na Região Metropolitana de Curitiba. Há cinco anos, o casal e os filhos Maria Eduarda e Miguel moram no residencial AlphaVille Graciosa. Ela conta que a praticidade e liberdade que as crianças podem ter dentro do residencial foram decisivas na hora da escolha. No entanto, apesar da segurança e opções de lazer, a distância do condomínio para o centro da cidade pesa negativamente. “Aqui dentro temos vários serviços e a escola das crianças é ao lado, mas para trabalhar fica complicado pois meu escritório é no Água Verde. Além de ter de sair daqui para trabalhar, ainda faltam serviços como médicos e terapeutas”, completa.

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Entretanto, os condomínios mais próximos à cidade, sonho de quase todas as pessoas, são vistos por urbanistas como entraves em diversos aspectos. Segundo o arquiteto e urbanista Rodrigo Firmino, doutor em Planejamento Urbano e Regional, os grandes condomínios atrapalham a mobilidade de pedestres, carros e do transporte coletivo, esvaziam espaços públicos de lazer e obrigam as pessoas a conviverem com “ruas muradas”. “Em cidades de São Paulo isso já se tornou um problema, há locais com quilômetros e quilômetros de ruas com muros, pequenas fortalezas”, conta. Firmino lembra que os condomínios residenciais, como estão sendo empreendidos, não estão previstos pela lei. “Existe um projeto de lei em discussão e quando ele for aprovado a tendência é aumentar o número de condomínios. E a cidade como fica? Acredito que uma vida urbana assim não interesse a ninguém. Não é a cidade em que eu quero morar e espero que ninguém mais queira”, afirma. A arquiteta e urbanista Gisela Cunha Viana Leonelli, mestre em Urbanismo e em Engenharia Ambiental e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), concorda que o aumento de condomínios pode ser prejudicial à vida urbana como um todo. “A cidade se dá pela troca de relações das pessoas. Se há uma paisagem urbana totalmente fechada, sem espaços públicos, com condomínios que privatizam as áreas de lazer – que são lindos, mas são um tédio porque vivem sem ninguém – temos a vida urbana empobrecida e o efeito cumulativo é a morte da cidade”, diz.

Fonte: Gazeta do Povo